A Beleza de um Mundo de Mentiras

Sempre ouvimos que mentir é feio, mas eu lhes digo. Escrever é mentir, saiba disso, e você se dará bem.

 

Bem vindo de volta a esta humilde hospedaria, estará sempre aberta, e eu, pronto para uma boa conversa (sim, podemos conversar, vá lá embaixo e deixe o seu comentário) sobre Literatura, e coisas que permeiam esse mundo mágico, sente-se, e daremos início ao nosso papo quase semanal (eu tentei, mas como diz o sábio, nem só de escrever vive o homem).

Hoje voltaremos a falar sobre a Fantasia na literatura. Mais especificamente, sobre algo que me agrada muito nesse gênero, e sei que pode ser mal visto, até escondido – alguns lhe dão outros nomes – mas no fundo é sempre a mesma coisa.

Hoje eu falarei sobre mentiras.

E já lhes digo de cara o motivo, mentir é um ato humano, social, normal, e justamente por isso tão complexo, como tudo que diz respeito a nossa “humanidade”, e literatura é criação do homem, portanto sujeita à falsidade. O ser humano é a coisa mais complexa do mundo, e podemos ver isso claramente. Basta olhar para o nosso interior. Dúvidas, é o que veremos. Não quero me debruçar sobre faceta psicológica disso (essa questão ficará para outro texto), mas deixarei você pensar um pouco.

Mentir é bom, ou ruim?

EstimagesHTW9YV99a não é pergunta certa jovem padawan.

Quando pensamos um pouco mais profundamente sobre o ato de ludibriar, descambamos para a ética, algo bem complexo que já faz parte da filosofia, a ética serve para nos guiar com julgamentos morais, certo ou errado é um deles. E essa discussão é umas das mais recorrentes no mundo. Quantas vezes já presenciamos algo do tipo em nossas aventuras pela internet?

Lembra que falei que o homem é complexo?

Enfim, não me prenderei sobre a visão ética/filosófica da mentira, mas podemos falar de maneira bem mais livre sobre ela na literatura. Afinal, a Fantasia é um grande embuste – uma viagem como falariam alguns – mas saiba, essa é uma viagem bem complexa, e nada boba; para criar coisas maravilhosas e complexas, ninguém melhor que o homem.

Não se assuste, o papo está complicado?

Relaxa que eu explico.

Você já viu uma criança brincando sozinha? Nos dias de hoje isso é cada vez mais normal, filhos únicos são uma realidade bem comum atualmente.1D274907577618-today-kids-fb-status-150109-01.today-inline-large

Quando ela está só com a sua criatividade (leia o meu texto aqui), ela cria histórias. Algumas vezes cria também um cenário que pode ou não fazer sentido para nós, mas para ela, tudo é bem real em sua mente. Eu já vi uma que brincava que era o Ben10 vestido de Batman e lutava contra uma Tartaruga Ninja (sim, elas podem imaginar coisas do tipo).

Não se assuste, ela não está fazendo nada demais. E saiba que um escritor de Fantasia não está muito longe dessa criança. Ele tem que ludibriar seus leitores e a si mesmo. Tem que imaginar coisas mirabolantes, situações engraçadas, e monstros que assustariam até o Conan, tudo de uma forma madura, de um jeito que o leitor aceite acreditar, e essa é a única diferença entre aquela criança e você escritor. E para que isso aconteça, você deve criar uma bela quimera.

O ser humano adora a liberdade, adora ser criativo, adora inventar, e nada melhor para isso do que fazê-lo tudo do zero. Ter uma tela em branco e possibilidades infinitas. E lhes digo: se você não está escrevendo uma biografia, ou um relato, o que você escreve é uma grande farsa, mas lembramos, as mentiras só são aceitas quando acreditamos nelas, quando fazemos essa escolha, e isso torna muito difícil o ato de mentir bem.

Vamos usar um exemplo. Imagine um ator atuando, a cena é o final da peça, a morte da mulher amada, você espera uma mentira, sabe que tudo é falso, mas não pode ser uma potoca qualquer, e sim uma tão boa que faça você “acreditar” nela, então vem a decepção, você percebe o choro forçado, o peito da mulher morta se move, o sangue parece o suco de groselha que você adora. Na hora a peça acaba para você, a mentira não colou. Isso também acontece com livros.

FantasyDragon36988Ler aquela linda cena de dois cavaleiros montados em dragões lutando pelas suas famílias, pela honra, tudo é um grande engodo, no entanto você aceita. E por momentos está voando ao lado deles e torcendo pelo seu preferido. A inverdade não lhe incomodou, pelo contrário, quem lê fantasia busca por isso, esse sentimento, a aventura, a liberdade. Buscamos fugir um pouco da realidade, sonhar com o que aquelas páginas nos mostram, novos mundos, aventuras, tudo é diversão, uma bela mentira bem contada e capaz de fazer tudo isso com o leitor.

 
Mentir não é para qualquer um, escrever, menos ainda, e escrever boas mentiras, é para bem poucos.

Ver aquela bela tela em branco, um mundo de possibilidades, é desesperador para alguns, seria mais fácil contar a sua aventura até a padaria ou a viagem que você fez no feriadão, mas não para nós escritores de Fantasia. Para nós, uma tela em branco está pronta para ser pincelada com novos mundos, belas damas, dragões (amamos dragões), reis dignos, cavaleiros com honra e vilões com o coração de pedra, algumas de nossas mentiras já foram contadas muitas vezes e isso não é problema. Eu lhes garanto: elas continuarão a ser contadas, e muitos ainda ficarão felizes acreditando nelas.

As lendas também possuem suas missões. Elas nos fazem pensar nas verdades da vida, ter sentimentos verdadeiros, algumas podem fazer chorar com a morte daquele alienígena fofinho que só quer voltar para casa, outras fazem rir com um ogro verde que tem como amigo um burro falante. Lhes digo: o sorriso foi de verdade, a lágrima também, a reação do leitor não é falsa, nem pode ser. As mentiras podem ser usadas até para críticas, para te mostrar coisas erradas, te fazer pensar e quem sabe, a ilusão é tão boa que foi capaz de mudar, mesmo que pouco seu modo de ver a vida.

Acredite, a Fantasia tem esse poder.

Fernando Pessoa, um dia escreveu:

Fernando_Pessoa_1

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente.
Que chega a fingir que é dor.
A dor que deveras sente.”

Quando conseguir acreditar no que colocou naquela tela em branco, você como escritor terá dado um grande passo para que seu texto tenha qualidade. Lembre-se das palavras de Pessoa. E siga seu caminho como escritor.

Continue mentindo.

Enfim, essa foi a conversa de hoje, e lembrando que podemos conversar, baste você deixar um comentário. E até a próxima.

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Marco Paiva é professor de matemática de Belém do Pará. Ávido consumidor de cultura pop, e algumas coisas além dela. Escreve desde de pequeno, mas a vida o distanciou das histórias. Diz-se um viajante por muitos mundos, e adorador de novidades. Debater é seu esporte, e nas horas vagas se incomoda em ficar sem fazer nada, a vida é muito curta para o ócio. Escritor amador, em uma epopeia para terminar o primeiro romance, e seguindo a vida e suas linhas.

  • Lana

    Concordo. Eu acredito nas mentiras que escrevo pois, no momento que a tinta toca o papel (ou que eu digito fervorosamente), se tornam verdades. Ótimo texto!!!