A Literatura Infanto juvenil e o Cinema – Parte 2

Apesar de estarmos ainda engatinhando nas adaptações infanto-juvenis para o cinema, bons roteiros começam a aparecer, isso é um bom sinal.

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OBSERVAÇÃO: Chegou agora? Leia a parte 1 desse artigo nesse link.

Resolvi continuar escrevendo sobre adaptações de livros infanto juvenis para o cinema porque ainda preciso discorrer sobre os filmes nacionais. Apesar de boa parte das adaptações pós Harry Potter darem “com os burros n’água”, no cinema nacional acabamos por nos deparar com um filme adaptado de uma das mais famosas coleções brasileiras e uma das mais lidas no país: a Coleção Vagalume. Como eu havia escrito no meu último texto, a Coleção Vagalume foi um grande braço que me permitiu conhecer a literatura como algo além de Monteiro Lobato ou mesmo Orígenes Lessa. Li oitenta por cento da Coleção, muito livros por imposição da escola, mas nunca me arrependi de tê-los terminado.

Hoje, a Coleção volta à baila com a adaptação para o cinema do famoso livro da mineira Lúcia Machado de Almeida, O Escaravelho do Diabo. Apesar de ter outros títulos na Coleção (O Caso da Borboleta Atíria, Aventuras de Xisto, Xisto no Espaço, Xisto e o Pássaro Cósmico e Spharion) e de ter escrito muitos outros títulos para outras Editoras, além da Ática, foi com a história do garoto que decide acabar com a misteriosa morte do irmão e sua relação com um escaravelho que a transformou numa das autoras mais lidas no período e que, com isso, acabou consolidando toda a Coleção.

Escolhido para ser o início de uma boa franquia para o cinema nacional de adaptações infanto juvenis, O Escaravelho do Diabo tem a direção de Carlo Milani (filho do ator Francisco Milani), que já esteve atrás das câmeras em várias novelas da Rede Globo e agora tenta convencer o público que nossos célebres autores nacionais podem e devem ser adaptados. Estão nos planos da franquia, a adaptação de O Mistério do Cinco Estrelas, assim como O Rapto do Garoto de Ouro, ambos do autor paulistano Marcos Rey (morto em 1999).

 

Textos infanto juvenis sempre estiveram presentes no nosso cenário, tanto cinematográfico, quanto televisivo — a preocupação vem de muito longe

A primeira versão da adaptação de Monteiro Lobato e o seu Sítio do Picapau Amarelo data de 1952, ainda na extinta TV Tupi, ficando onze anos no ar num ininterrupto sucesso. Não podemos esquecer da primeira versão também da Vila Sésamo (programa infantil com direitos americanos que foi considerado a melhor versão do Sesame Street do mundo), além da dupla Shazan e Xerife (com Paulo José e Flávio Migliaccio), como a versão sempre cultuada do Sítio do Picapau Amarelo dos anos 1970. Quem lembra dos Festivais infantis da Rede Globo, como Plunct Plact Zuuum ou A Arca de Noé? Então, não podemos negar que muito foi feito em prol da teledramaturgia voltada para o público infanto juvenil. Mas… E o cinema?

O Segredo dos Diamantes, de Helvécio Ratton.

Em um país que sempre se preocupou com a linguagem infanto juvenil, seja na televisão seja nos livros, nos últimos tempos parece que esta comunicação com este tipo de público em especial tem se tornado difícil. Alguns exemplos disto é a baixa bilheteria de filmes relativamente bons que estiveram em poucas salas por este Brasil a fora. É o caso de O Menino no Espelho, de Guilherme Fiúza Zenha, com roteiro baseado no livro de Fernando Sabino; Meninos de Kichute, de Luca Amberg; do premiado em Gramado O Segredo dos Diamantes, de Helvécio Ratton e até a animação indicada ao Oscar, O Menino e o Mundo.

Se voltarmos mais no tempo, conseguiremos acompanhar outras poucas bilheterias com O Menino Maluquinho, do próprio Ratton, baseado na obra máxima de Ziraldo; temos Tainá, da diretora Rosane Svartman; os desastrosos filmes de Xuxa Meneguel, das simplórias sessões de Os Trapalhões às iniciativas cinematográficas de Amácio Mazzaropi.

Deixando muitos filmes de fora, para não falar de quase todos, há um erro crasso em todas essas produções que é absurdamente visível para quem muito lê e muito observa as nuances das adaptações: falta magia.

Sim. Apesar de estarmos tomando um fôlego único com as últimas produções que começam a surgir em nossas telonas (porque não falar também de Carrossel 2) falta magia. Quando falamos de filmes infanto juvenis, sejam eles adaptados de uma obra literária ou não, queremos assistir algo mágico, algo que nos faça transpirar emoção, queremos que cada imagem seja de uma leveza sem igual, que a película nos mostre que mesmo num roteiro assiduamente realista, o surreal precisa estar presente.

Este raro quesito (a magia) funciona. Em doses bem colocadas pode transformar um simples roteiro numa mega produção, sem precisar cair constantemente em intermináveis fundos verdes. Como antes eu havia dito, ou melhor, escrito, adoro a arte cinematográfica de Tim Burton, justamente pela dose de magia com a qual ele brinca em seus filmes. Mas convenhamos que ultimamente ele tem abusado desta “magia” tornando-a exagerada, acabando por transformar a plástica de seus filmes em um número abusivo de efeitos especiais sem sentido (onde estão os animais adestrados e as grandes máscaras mecânicas?). Guilhermo Del Toro consegue deixar um filme de super-herói, como Hellboy, muito mais mágico que Alice no País dos Espelhos, última produção de Burton.

 

Enfim, adaptar um roteiro infanto juvenil para o cinema não é uma tarefa fácil

Colocando nossas esperanças numa produção baseada num best seller de uma Coleção cultuada, como a Vagalume, pode ser uma aposta boa. Isso se pudermos realmente contar com a falácia de que muitos outros virão. Meu livro preferido da série é O Rapto do Garoto de Ouro. Gostaria de vê-lo, sinceramente, sendo adaptado para as telonas e sim, gostaria de assistir um pouco de magia em tudo isso.

Por falar em magia, você já percebeu o quanto poderíamos usá-la e abusá-la caso tivéssemos produções gigantescas das obras do mestre Monteiro Lobato? Sim, quando falamos de infanto juvenil brasileiro sempre falaremos de Lobato. Mas por enquanto os direitos das obras do mestre estão nas mãos da Editora Globo e da família dos Lobatos. E você já imaginou (não há palavra mais digna do que o verbo imaginar) se estes direitos fossem usados, digamos, para embarcar Dona Benta e Cia. em riquíssimas produções cinematográficas? Digamos que é só uma ideia!

Mas, não posso falar com propriedade sobre obras infanto juvenis se você não ler o livro o qual escrevi. Deixo aqui o link para você adquiri-lo (olha o jabá) e depois conversamos.

E tenho dito!

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Formado em Artes e Letras. É Ilustrador Profissional, Quadrinista, Professor de Desenho, Escritor e um dos responsáveis pelo Estúdio de Quadrinhos UCMComics onde divulga e promove a cena independente na cidade de Curitiba. Já publicou diversos livros e revistas em quadrinhos, tanto impressos quanto digitais. Participou de diversas exposições de quadrinhos e artes plásticas, ministra Palestras, Workshops, Oficinas e Encontros como Quadrinista e Professor de Desenho.

  • Carlos Lopper

    Eu acredito que no Brasil, o nosso foco ainda não é o cinema. Aqui se trabalha muito com novela e se dá muita importância a isso. As novelas da globo estão cada vez mais cinematográficas. Lembro-me bem de Meu Pedacinho de Chão que foi um show de produção, mas acredito que não teve tanta importância por justamente se tratar de uma novela Infanto-Juvenil. Eu espero que se dê importância ao nosso cinema, e as nossas obras. E acredito que estão dando importância. O problema são os nossos brasileiros que mantem essa cultura de não apreciar o que é da terra.

    Em suma… filmes que dão certo aqui são: Filmes de Tráfico e de Comédia.

    • Marcelo Oliveira

      Você tem razão, Carlos. Estamos longe de ter uma adaptação infanto juvenil para o cinema de qualidade. Como eu repeti várias vezes no meu texto, filmes infanto juvenis precisam ter magia, uma magia encantadora. Mesmo esses filmes sendo de cunho realista, eles precisam encantar os olhos do espectador, como se fossem um sonho maravilhoso. Para isso, precisamos de um roteiro (mesmo adaptado) muito bom, bons atores e uma dose moderada de efeitos especiais de primeira e, claro, muitos investimentos. Eu sempre me questionei sobre o fato de Xuxa Meneguel e Renato Aragão manterem um Estúdio de Cinema com vastos recursos financeiros e filmarem produções juvenis tão pobres. Enfim…