A Arte da Escrita segundo H. P. Lovecraft

“Creative minds are uneven, and the best of fabrics have their dull spots.”

A Fórmula do Mestre

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Antes que o leitor veja com estranheza este post, gostaria de clarificar prontamente que estes conselhos de escrita são focados em apenas um tipo específico: Contos de Ficção do tipo “Weird Fiction”. Lovecraft foi um gigante literário de inteligência ímpar. Seus ensaios e notas revelam não só uma mente atenta a invólucros tenebrosos que existem nas entrelinhas da existência humana, mas um paladar e refinamento para com a literatura que muito doutorando de longa data jamais terá. Esse homem deixou para nós mais do que uma imagética riquíssima de mistério, esoterismo e horror, mas conselhos e diretrizes para muito autor amador crescer na direção certa sem medo de ser feliz.

Sim, Lovecraft é o professor de escrita e literatura que você sempre quis ter e nunca encontrou nas universidade.

A presteza de sua escrita, a princípio, faz parte de um método pessoal dividido em cinco passos: São relativamente simples, claros, concisos e diretos o bastante para qualquer pessoa entender. O mistério em sua escrita é que não há mistério de fato — seus pontos fortes são revelados em seus ensaios como uma acuidade com a língua e refinamento com impressões, maneirismos e cultura literária da melhor qualidade. Não obstante, seu gênio impecável abarcava um certo paladar pela alta cultura que vem registrado em sua história pessoal; Desde a infância ele teve contato com obras literárias de valor inestimável, e seu gênio desenvolveu-se escorado em lendas e folclore, onde magia, mistérios e uma contemplação da realidade e suas leis naturais são desafiadas, ignoradas ou reforçadas.

O Processo de Criação

Vamos a eles:

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1. Prepare uma sinopse ou cenário de eventos na ordem de sua ocorrência, não de sua narrativa: Lovecraft chama atenção para detalhes nesse primeiro ponto. Coloque em ordem os eventos da sua história e decorra na gama de detalhes até obter o suficiente para uma trama coesa. Mesmo que essa seja uma estrutura temporária ou apenas um rascunho, é muito importante ter em mente tudo que será levado em conta na sua história.

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2. Prepare uma segunda sinopse ou cenário de eventos: Feita a primeira parte, faça a segunda na ORDEM NARRATIVA, isto é, na ordem em que a história será contada. Aqui deve-se ampliar os comentários, anotações, detalhes e descrições ao máximo. O que você não gostar na primeira sinopse será, agora, remontado nessa segunda. Tome seu tempo para remanejar tudo à seu gosto. Tire os detalhes que não são relevantes. Mude pontos que devem ser alterados – mesmo que isso faça a história tomar um rumo completamente diferente do inicial. Conecte os pontos, faça pontes entre os eventos.

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3. Escreva a história – rápida, fluente e não tão criticamente: Esse terceiro ponto é o mais interessante; Agora que você decorreu duas sinopses inteiras e já descarregou muitas das ideias no papel, use a ordem da segunda narrativa para escrever o corpo da história. Embora esse não seja um processo definitivo (Nunca o é, se pensar bem), Lovecraft coloca esse terceiro ponto como o ‘corpo’ do texto; Mesmo que haja alterações aqui e ali no desenvolvimento dessa terceira parte, aqui você já deve ter consigo uma boa noção de como será sua história – e de como ela ficará no final. Se for preciso tirar sessões inteiras e fazer alterações, faça-o sem medo. O importante aqui é já ajeitar o conto para seu design final.

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4. REVISE todo o texto, atento a vocabulário, sintaxe, gramática, etc.: Lovecraft era o tipo de escritor que leva o trato com a língua muito a sério. Seus ensaios revelam um profundo desprezo por aqueles que agem de forma bárbara com a língua, apontando erros de novatos e inclusões absurdas que não pertencem a norma culta. Esse quarto ponto é dedicado a esses detalhes. Aqui você deve pegar o livro de gramática e fazer um trabalho minucioso de revisor e esteticista, dando atenção aos ritmos da prosa, descrições, tom da narrativa, atmosfera, enfim.

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5. Prepare uma nova cópia devidamente redigida: Se for preciso adicionar mais detalhes, faça-o; Porém, tenha em mente que esta é a última etapa do processo de criação, e que boa parte da história já deve possuir uma estrutura sólida.

 

Outros conselhos do Mestre

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Quando o assunto é ‘Weird Fiction’, Lovecraft é a referência principal do século XX. Seu foco narrativo está bem claro em suas histórias – O ambiente, as sensações, o clima que cerceia a trama – sempre escorado em um realismo quase pacato, mundano. Lovecraft critica autores que fazem uso do inconcebível, do improvável como alavanca para a trama. Contudo, deve-se evitar um estilo de escrita casual, pois, segundo sua recomendação, um estilo sem vida própria arruína qualquer narrativa fantástica. Ele delimita a narrativa da seguinte forma: ela deve manter um segmento de eventos concisos e naturais, com um toque de fantasia. Esse ‘toque’ deve produzir as mesmas emoções e sensações que uma pessoa teria diante do elemento fantástico, mesmo quando é recorrente na história. Lovecraft aconselha que, por mais que a história acostume os personagens com tais elementos fantásticos, é desejável manter uma aura de fascínio e impressão diante deles.

Já no estilo ‘Weird Fiction’, Lovecraft aponta que a atmosfera, não ações, é o âmago desse estilo. Ele comenta que o temperamento humano, seja do personagem ou da narrativa, é que dá o traço peculiar desse estilo literário. É mantendo um temperamento soturno, com sugestões sutis de uma realidade alternativa, um ponto de vista diferenciado ou até uma ilusão decorrente, que se dá forma à trama. Se fugir disso e começar a deslanchar em um catálogo de acontecimentos fantásticos ou qualquer outra coisa cujo foco desvie do que foi citado acima, torna-se pueril, barato e pouco convincente.

Que tal dar uma chance a esses conselhos de um dos maiores mestres de horror da literatura? Lovecraft deixou para nós, meros mortais, muito mais do que um estilo literário, mas um exemplo de perseverança e genialidade diante das mais injustas situações conflitantes de nossas vidas. O estereótipo ‘starving artist’ nunca se encaixou tão bem como nessa figura quase esquecida pelo tempo. Mas o que é eterno não é subjugado pelo tempo. Como escreveu Lovecraft em um dos seus contos:

“That is not dead which can eternal lie, And with strange aeons even death may die.”

 

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Leandro Castro (Colaborador) é estudante da língua inglesa, leitor assíduo e escritor amador. Tem como hábito perseguir os sentimentos ocultos nas entrelinhas deixada pelos grandes autores, sem ter consciência do que isto pode acarretar. Nas horas vagas mergulha em RPG, música, poesia, magia e meditação.

  • Ikaro Henrique

    O mestre da bobagem e só.