Cinema, Literatura e as Mazelas da Sociedade

No texto, Literatura e Cinema: Pontos em comum, falei sobre algumas características que o Cinema e a Literatura possuem. Agora, vamos conversar sobre um aspecto fundamental que ambos utilizam e que possui um caráter social muito forte. A denúncia feita através dos livros e dos filmes à realidade que atinge, principalmente, as minorias sociais e que muitas vezes é negligenciado pelas autoridades responsáveis, e/ou desconhecidas por grande parcela da sociedade.

Na verdade, essa característica não está presente apenas na Literatura ou no Cinema. As diferentes formas de arte, utilizando de sua capacidade de atingir uma grande massa de espectadores, abordam temáticas que causam discussões, propiciam debates, causam estranhamento, chocam, revelam fatos, criticam tendências e comportamentos, aconselham, escandalizam e, principalmente, denúnciam.

Posso citar, por exemplo, o quadro de Pablo Picasso, Guernica, pintado como forma de representar o terror causado durante a Guerra Civil Espanhola. A cena pintada em preto e branco, cores que intensificam o drama, retrata o bombardeio à cidade de Guernica, em 26 de abril de 1937, pelos aviões da Alemanha Nazista que apoiava o ditador Francisco Franco. Nas palavras de Picasso “la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo”.

Mas, vamos voltar a falar de Literatura e Cinema!

 

Denúncia na Literatura

Escrever é uma arte que nas mãos de alguns se transforma em arma. Uma forma de denúncia, de mostrar ao mundo uma realidade que só nós vemos. Muitos são os livros que retratam a dura realidade de algumas regiões do planeta, das minorias sociais, dos preconceitos e das feridas camufladas de mil maneiras no seio da sociedade.

Não precisamos ir muito longe. O Brasil tem vários desses monstros sagrados da Literatura que abordam temas que merecem destaque no cenário nacional, mas que são deixados de lado. Como é caso da seca no sertão nordestino, realidade que ainda persiste nos dias atuais,  tão bem retratado no livro O quinze de Rachel de Queiroz ou em Vidas Secas de Graciliano Ramos.

Temos a dura empreitada de Castro Alves, autor do poema Navio Negreiro, que criticava abertamente à escravidão e era defensor ferrenho da abolição da escravatura. Nesse poema, Castro Alves descreve através de terríveis cenas e imagens a forma como seres humanos eram cruelmente arrancados de seu país, transportados como animais para servir de escravos a outros seres humanos que se diferiam daqueles apenas pela cor de sua pele.

Atualmente, temos obras que tratam de temas variados. Alguns continuam abordando os diferentes tipos de preconceitos, sendo a homofobia a que começa a despontar com força nesse cenário. Como é o caso do livro Dois garotos se beijando de David Levithan que trás muitas cenas de preconceitos, bullying e agressão sofrido por seus personagens.

Na verdade, a ação principal em torno do qual a narrativa se desenvolve, a tentativa de Craig e Harry quebrarem o recorde mundial do beijo mais longo, acontece justamente como uma forma de protesto e denúncia às agressões que um adolescente, que frequenta a mesma escola que eles, sofreu. O beijo é transmitido pela internet e, por isso, atrai os olhares e opiniões de pessoas que se posicionam contra ou a favor ao que os meninos estão fazendo, o que gera na cidade onde o beijo ocorre, assim como nas redes sociais, uma intensa discussão à respeito da homossexualidade.

 

Denúncia no cinema

O cinema também compartilha dessa característica. Muitos são os filmes que abordam temáticas sociais em seus roteiros como forma de trazer à tona, de provocar discussões e demonstrar fatos que merecem ser vistos e discutidos pela sociedade.

Vamos viajar um pouco. Estamos agora na Rússia, 1919. O país teve suas bases abaladas pela Revolução Russa. Muitos cineastas migraram para outros países. 1919, o governo interfere na produção cinematográfica da época transformando-a em um canal de comunicação, educação e propaganda. Avançamos no tempo, estamos em 1922, Lênin instaura a liberdade, onde o setor privado pode investir na criação de filmes. Grandes obras de denúncias são produzidas nessa época.

Posso citar A Greve de Eisenstein (1925). O enredo desse filme alude à situação de trabalho dos operários nas indústrias.  A história começa pela apresentação da situação de trabalho, fazendo oposição entre patrões e operários. O desencadeamento do problema acontece com a injusta acusação de roubo de uma ferramenta, feita a um operário, que, desesperado, suicida-se. A fábrica para. Os operários, libertos do trabalho, celebram. O capitalista amarga a solidão. Começa a mobilização para a repressão. Fica crítica a situação dos grevistas quando a greve se prolonga: a irritação, a fome, as brigas familiares. Os patrões mobilizam o proletariado para se infiltrar no movimento, provocar tumulto e possibilitar a repressão que resulta num massacre impiedoso da massa operária.

Além desse filme, poderia citar produções brasileiras como Carandiru que abordou o cotidiano da extinta casa de detenção, conhecida por Carandiru por está localizada na cidade de mesmo nome, retratando a realidade dos presos antes  e durante o massacre no qual 111 detentos foram morto pela polícia em 2 de outubro de 1992.

O Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes  com roteiro de Adriana Falcão, e baseado na peça teatral “Auto da Compadecida” de 1955 de Ariano Suassuna, é um filme que, embora seja uma comédia, aborda temas marcantes do sertão nordestino, tais como, a seca, a situação difícil de seus habitantes, o cangaço, entre outras coisas. Tudo isso, claro, acompanhado de muito humor. Existem muitos outros filmes que poderia elencar, mas deixarei para o leitor a tarefa de encontrar filmes que se enquadram nesse perfil.

 

Concluindo, enquanto o cinema utiliza suas imagens, os escritores usam suas palavras. Sempre há algo a ser retratado. Uma mensagem que merece ser transmitida. Uma denúncia que precisa ser feita. Um tema que merece ser trazido à tona para propiciar a discussão. Um ponto de vista que merece ser mostrado.

É preciso que estejamos alerta e façamos de nosso trabalho não somente uma obra de arte, usando as palavras de Picasso, mas uma forma de lutar contra a dura a realidade que nos oprime.

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Djane Fernandes mora em Itaitinga/ CE, é estudante de Biblioteconomia, apaixonada por boas histórias, músicas e cinema. Ama aprender sobre outros povos, culturas e idiomas. Escreve desde que aprendeu a segurar a caneta e gosta de falar de si na terceira pessoa.