Como Aprender uma Segunda Língua te Faz um Escritor (e Pessoa) Melhor

“Porque é importante”, respondem meus alunos quando eu pergunto a eles o porquê de estudar inglês. Eles não estão errados, mas “importante” mal começa a definir o quanto que uma segunda língua pode mudar suas vidas – e mais ainda a nossa vida, como escritores.

Você já deve ter reparado como é diferente associar palavras e frases de uma língua para outra. No caso do português e do inglês, isso se faz ainda mais evidente visto o nosso contato com a língua inglesa através de filmes, séries, e-mails de trabalho, vídeo games e a maior parte do conteúdo online. Isso acontece porque cada língua se organiza de acordo com a visão de mundo e da cultura de um determinado povo.

Eu sei, isso parece estranho. O mundo é o mesmo mundo pra todo mundo e pronto, certo? Certo! Mas a maneira com que interpretamos o que nos cerca para fazer sentido delas no nosso intelecto pode ser totalmente diversa. Quer ver?

No nosso português brasileiro, por exemplo, muitas vezes associamos sensações a características. Por isso falamos que um ambiente pode ser gostoso, como se pudéssemos sentir seu gosto na nossa boca. Por isso ampliamos a sensação de sentir falta de algo a uma solidão, nostalgia ou melancolia que só a palavra saudade pode definir. E isso faz ainda mais sentido se considerarmos que somos um povo caloroso, sensorial e que valoriza o contato humano em todas as suas formas, mas principalmente a física.

Mas calma, nós não somos especiais por criarmos e adaptarmos nossa língua de acordo com o nosso jeitinho. Os nativos de língua inglesa, entre outros, passam pelo mesmo processo diariamente. Por exemplo, o famoso (e temido) present perfect: vários livros didáticos já tentaram traduzi-lo e criar fórmulas de uso sem sucesso. Por que? Porque tudo que o presente perfeito em inglês quer é mostrar uma ação que aconteceu no passado, mas que ainda traz consequências ao presente ou futuro. Você conhece alguma estrutura no português que sirva como base para criar uma correspondência a isso? Pois é, porque não existe. Pensar no impacto de uma ação passada no presente e ainda coloca-la numa estrutura gramatical não fazia parte do interesse dos nossos ancestrais portugueses.

Agora voltemos à minha sala de aula. Para que meus alunos entendam o funcionamento da língua inglesa e cada forma única de expressão que ela carrega, não posso simplesmente transferir todo o conteúdo para o português. Faz parte do meu trabalho conduzir meus alunos através da maneira com que os nativos da língua pensam, observando o mundo e organizando suas ideias de uma outra forma.

Aprender uma segunda língua não é apenas sair do seu próprio mundo, mas adquirir a habilidade de interpretar todas as realidades desse nosso mundão de um jeito totalmente diferente do que estamos acostumados. A partir daí, também nos tornamos capazes de nos colocar no lugar do outro, mas da sua forma mais pura e genuína. Porque não basta eu me colocar no lugar do outro, mas me limitar à minha própria maneira de pensar – a verdadeira empatia vai muito além disso.

A linguagem e a comunicação são as melhores ferramentas que temos em mãos para entendermos uns aos outros da maneira mais eficiente possível, isto é, pensando e interpretando o mundo como a outra pessoa o faz.

Daí pra frente, é você quem dá as cartas do jogo. Você pode usar essas ferramentas para aperfeiçoar sua arte do convencimento, para compartilhar suas ideias de modo que o maior número possível de pessoas as compreenda ou ainda, quem sabe, um pouco dos dois: ser um escritor.

Não é à toa que grandes nomes da literatura tem experiência no ensino ou aprendizado de línguas estrangeiras: Machado de Assis, J.K. Rowling, Paulo Coelho e muitos outros. Você pode achar isso simplesmente natural, já que o escritor geralmente tem uma veia linguística forte. Mas a função de uma segunda língua pode ir muito além da naturalidade; ela habilita o escritor na sua missão primordial de contar histórias verossímeis, que criem identificação entre personagens e leitores e que toquem o coração das pessoas.

Ok, ok, como professora de inglês eu sou altamente suspeita pra falar disso tudo. Mas, na dúvida, experimente. Mergulhe no aprendizado de uma segunda língua, mantenha seu contato com ela de todas as formas possíveis e observe as mudanças na sua maneira de ver o mundo.

Se ainda ficou alguma dúvida ou curiosidade, peço encarecidamente que você assista ao filme “A Chegada” (2016), com 8 indicações ao Oscar e inúmeros questionamentos que vão te deixar pensante até muito depois de ter terminado o filme.

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Formada em letras pela UFRGS, professora de inglês, viajante e escritora. Gosta de tudo com moderação, inclusive a moderação. Escreve sobre suas aventuras de viagem no blog www.instintodeviagem.com.br