High Fantasy. Vamos Brincar De Deus?

Hoje falaremos sobre algo que adoro muito na literatura: Brincar de Deus.

Calma, aqui não falarei sobre seitas, nem nada do tipo, hoje falarei sobre High Fantasy.

Acredito que quem esteja lendo este texto já tenha lido pelo menos um exemplo desse subgênero literário. Mas se não leu, não tem problema, pois estamos aqui para explicar tudo bem direitinho.

Começaremos por “o que diabos é a High Fantasy?”.

O que é?

Simples. Nada mais é do que a fantasia que acontece em um mundo fictício. Ou seja, um mundo criado. E aí que está a parte divertida. Você é livre para fazer o que bem entender, mas lembre-se: Com grandes poderes, você terá grandes responsabilidades.

E logo de cara posso te dar bons exemplos: Narnia, Westeros, e isso sem falar na sagrada Terra Média.

Enfim, se não estava claro, acho que agora está.

Mas não pense que criar um mundo é fácil, e nem que brincar de Deus te permitirá criar um em seis dias. Pode até ser, mas te garanto que é muito pouco tempo para que esse mundo seja consistente e profundo. Assim ele não será interessante. E aposto seus leitores não vão querer viajar pra lá.

Para ficar simples, eu dividi em alguns tópicos o que faz um mundo interessante.


O Relevo:

Todos já caminhamos aqui.
Todos já caminhamos aqui.

O seu mundo deve ter uma forma. Ele é cheio de árvores ou é um deserto? Um mar sem fim ou uma tundra estéril? Plano ou cheio de montanhas? Com ilhas voadoras ou uma cidade submersa?

Aqui, nada te limita.  Você pode simplesmente colocar tudo em seu mundo, ele só precisa ser bem estruturado. Todo leitor gosta de ver um mapa bonitinho saído direto da imaginação do escritor; basta que para ele aquilo faça sentido.

Neste ponto é interessante nos preocuparmos com uma boa descrição, pois as palavras devem formar as paisagens imaginadas por quem escreve nas mentes criativas dos leitores, e nada melhor para fazer uma boa descrição do que o profundo conhecimento daquilo que é descrito. E este mundo só existe em sua mente, então visite-o o quanto desejar, viaje por suas estradas e saiba exatamente o que o seu personagem estará olhando quando subir no pico daquela montanha, ou que cheiro aquela cidade possui. Um mundo deve ser rico em detalhes.

Os detalhes fazem toda a diferença.

Saiba que uma boa construção de relevo te permite criar histórias interessantes, pois sabemos que uma boa história é aquela que o personagem usa  bem o seu território, se desloca e mostra, através de seus “olhos”, o mundo ao leitor.


O Povo:

Um humano, um dark-elf e um anão. E parabéns se sabe donde veio essa imagem.^^
Um humano, um dark-elf e um anão. E parabéns se você sabe donde veio essa imagem.^^

Esse seu mundo não é desabitado. Devemos pensar com muito cuidado naqueles que viverão nele, pois existe uma relação simbiótica entre mundo e seus habitantes. A relação é profunda e decisiva. Pois a natureza molda o homem, e o homem doma a natureza, tudo dependerá do poder/tecnologia que seu povo terá.

Imagine que o mundo em questão é extremamente árido, e encontrar água é a luta diária de seus habitantes. Tudo girará em torno da busca por água, talvez nesse mundo existam os “Caçadores de Água”, pessoas que são encarregadas de ir atrás da escassa água para que seu povo sobreviva. E uma espécie de economia girará em torno dos recursos hídricos, pois podemos viver sem ouro, mas todos morrem sem água.

O mundo constrói sua população de forma ativa, não esqueça disso. Mas tome cuidado, pois estamos falando de seres racionais, e esses podem fazer mudanças no mundo, se adaptar a ele, e nos casos mais extremos, transformá-lo.

Quando criar o povo, estude bem suas limitações transformadoras; pois nem todas as civilizações são capazes de criar uma represa e desviar o curso de um rio, algumas no máximo constroem um barco para segui-lo.

É comum quando estamos falando de Fantasia, que além dos humanos, o mundo seja habitado por outras raças; essas podem ser de elfos, anões, orcs. As possibilidades são muitas, e para cada uma que adentra em seu mundo, o cuidado deve ser tomado.

As relações entre as raças devem ser bem construídas, sejam elas de amizade ou o contrário, pois estas relações fazem parte do mundo. Humanos podem se dar bem com os elfos, pois sempre viveram um perto do outro e suas semelhanças culturais permitiram a amizade, já os anões odeiam os elfos, pois cultuam deuses diferentes, e dessa forma a aliança Humanos-Elfos vive em guerra com os anões.

Este é apenas um exemplo de construção de relações entre as diversas raças que povoam o seu mundo, e para cada uma delas o cuidado deve ser redobrado, pois um povo possui histórias, lendas, e uma cultura derivada de suas experiências e história.

Explore bem os povos, pois seu personagem principal deve ser parte de um deles, e com os olhos dele o leitor viajará pelo seu mundo e entenderá os seus habitantes.


A História:

Todo povo possui sua história.
Todo povo possui sua história.

Outro ponto muito importante, talvez o mais, é o passado de seu mundo e consequentemente o de seus habitantes. Pois um passado molda o caráter do ser humano, e a história tem a capacidade de moldar a sociedade. Pense que seu povo passou por um passado cheio de guerras, eles se tornarão um povo guerreiro, se o passado for tranquilo, eles devem se focar em outras atividades, tais como as artes e o conhecimento.

O passado de um povo é muito importante pois é ele que agrega profundidade à história e insere o leitor em um contexto maior do que aquilo que ele está lendo, criando um elo entre o leitor e a obra; e como sabemos, este elo é o objetivo de todo escritor.

Uma forma muito boa de fazer isso é utilizando duas ferramentas poderosas: as lendas e os deuses(ou heróis). Lendas te inserem de uma forma muito positiva no mundo, mostrando um pouco do passado, do presente e de como as pessoas veem aquele mundo, com sua cultura, seus valores e seus medos. Uma lenda, nada mais é do um amálgama cultural que pode ser mostrado através das histórias contadas.

Os heróis por outro lado possuem quase sempre seus inícios baseados em algum personagem real, em um feito extraordinário, ou apenas em um grande golpe de sorte. O que é comum a eles, e que com o tempo, uma aura  é construída ao redor deles e assim eles alcançam o título de Herói, pois é tendo estes exemplos que o povo segue sua sina cheia de sofrimento e dor, pois um escravo venerará aquele que lutou pela liberdade liderando uma revolta que mesmo sem alcançar seu objetivo, foi o mais próximo que já chegaram da conquista. E o tempo tende a enaltecer as qualidades e esquecer as falhas.

Deuses são os mais poderosos de todos, basta olhar para o nosso passado e lembrar da época em que o homem explicava tudo a partir dos mitos, e quase todos estes mitos envolviam Deuses. O trovão que estronda no céu, Zeus, o mar que engole os barcos, Poseidon, a guerra travada entre homens, Ares. E assim a sociedade se organizou, com cultos e religiões, e assim percebemos que um dos pilares principais para a própria sociedade é a religião que ela segue. Ou pelo menos sua maioria, pois nada impede que exista mais de uma.

Não importa se heróis, deuses ou lendas, ou até todos eles juntos, o que importa é que para cada um que permeia o seu mundo, o sentimento de que aquilo é maior do que as palavras ali escritas. Queremos dar a sensação de que aquele mundo pode existir. O ser humano gosta de se enganar, faz parte da gente, então, que ele se engane com qualidade.

Aprenda a utilizar bem estas ferramentas, e com elas você dará profundidade suficiente para que seu leitor se sinta de verdade em um mundo, interessante e consistente.


Os poderes, magias, e seus mistérios:

Dragões, magos, feiticeiras, ou apenas a boa e velha espada. Está em suas mãos.
Dragões, magos, feiticeiras, ou apenas a boa e velha espada. Está em suas mãos.

Eis um assunto muito importante quando tratamos de High Fantasy, pois ela nos permite criar o que quisermos, com um certo cuidado é claro. Na fantasia podemos ter um mundo cheio de magia, e aquele que quase não a possuem, é uma escolha do escritor.

Independente de sua escolha, sempre deve-se ter como objetivo a ordem. As coisas devem seguir padrões e regras bem estabelecidas, e as limitações são tão importantes quanto os poderes.

Mas para ter uma ideia melhor de como a magia pode ser introduzida em seu mundo, leia esse outro texto que fala sobre a magia e a literatura aqui .


Concluindo.

Meu amigo(a) escritor(a), não tenha medo de seguir por estas veredas que você mesmo criará. As veredas serão tão verdes quanto você quiser, e tão interessantes quanto sua criação permitir.

Para que o seu mundo faça sentido, é importante que tenha uma visão de mundo ampla, pois quanto mais vasto e mais profundo for aquele mundo que escreverás, melhor será. O escritor deve ser versado em muitas coisas, e o que não domina, a pesquisa deve ser a saída, pois não podemos deixar perguntas sem respostas, mistérios sem soluções, e histórias sem finais.

Com isso, podemos criar o que quisermos, e criaremos com qualidade, que é o que importa para um bom escritor.

Na primeira palavra fez-se a Luz. ^^

 

 

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Marco Paiva é professor de matemática de Belém do Pará. Ávido consumidor de cultura pop, e algumas coisas além dela. Escreve desde de pequeno, mas a vida o distanciou das histórias. Diz-se um viajante por muitos mundos, e adorador de novidades. Debater é seu esporte, e nas horas vagas se incomoda em ficar sem fazer nada, a vida é muito curta para o ócio. Escritor amador, em uma epopeia para terminar o primeiro romance, e seguindo a vida e suas linhas.

  • Djane Fernandes

    Muito legal o texto. Criar outro mundo, em todas as suas perspectivas, não é nada fácil. É um baita exercício de imaginação e por isso muito prazeroso.