Nossa Cultura está Elitizada

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No Brasil temos uma ideia errada de cultura. A cultura aqui é vista como uma forma de apenas entreter quem realmente tem dinheiro — a Elite.

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Chopin e Dostoievski.

Quando falamos em cultura, o que realmente vem a mente é uma espécie de erudição radical de uma representação humana minoritária, uma intelectualização visceral, uma elitização. Para muitos, a chamada cultura está representada por um concerto de Chopin ou Wagner, da leitura de Dostoievski ou Trotsky, do caminhar por museus internacionais, do filosofar sobre os conceitos da humanidade pela visão crítica de um Sartre ou Camus, do assistir aos filmes de Godart ou Bergman.

Mas diante deste pensamento errado sobre esta manifestação, esquecemo-nos da chamada cultura popular. Daquela que nos trás uma relevância necessária ao termo cultura. O que mencionamos no parágrafo acima nada mais é do que apenas marcadores de posições sociais. O Governo imita uma democratização que apenas se esforça num processo caótico de hierarquizar o meio, reproduzindo apenas desigualdades em alta escala social.

Ao longo dos séculos, a humanidade criou manifestações que afloraram seu convívio social demarcando seu espaço no mundo.

Os Continentes transformadores foram aqueles, que de alguma forma, permitiram que seu povo jamais esquecesse suas raízes. Seja eternizando histórias através de lendas locais, seja criando e recriando danças nativas, seja estabelecendo um sincretismo entre regiões. A riqueza mediada por um povo é contada através de suas crenças, através de suas manifestações, antes de tudo, corporal.

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Literatura de Cordel, nosso tesouro literário e artístico.

A elitização branca, como foi chamada pelos intelectuais à época do Iluminismo, veio para erradicar o que o povo, já tiranizado, tinha de mais precioso — sua história. Não podemos esquecer que regiões antes ricas e distantes, foram dizimadas não só pelo pensamento da etnia branca europeia, mas também pelo apelo apologético de religiões enterrando, sobre o peito nu dos nativos, suas estacas irracionais. Foi assim com o Egito erradicado pelo pensamento grego (no qual a história nos conta que Tales de Mileto é o fundador da filosofia, ignorando completamente que Ramsés I já tinha um conselheiro que lhe ditava os rumos do pensamento de sua civilização, ou seja, um digno filósofo, quem poderá nos dizer que um dia a África poderá vir a ser o berço do pensamento filosófico); o pensamento grego foi adulterado pelos romanos, que passaram de politeístas a cristãos, para depois ter sua cultura depredada pelos Papas; os turcos vieram e destruíram a cultura sacro-românica e o Império Bizantino veio abaixo, sobre escombros de um Império Romano oriental hipócrita (foi dada a largada para os muçulmanos distribuírem suas hegemonias culturais por todo o oriente).

O Renascimento foi a era do “como era bonito e verde o meu jardim”. O pensamento grego mais uma vez aflorou, Aristóteles voltava à baila comandando até mesmo a fé dos apostólicos romanos. Caímos na Idade das Trevas, onde, segundo estudos recentes, indicaram não ser tão “trevas” assim, nos contando a história de um período onde as poucas revoluções que aconteceram (o uso de cavalos como tração, ao invés de bois, muito mais ligeiros e fortes, como um exemplo), nos trás benefícios até hoje.

Vamos dar um salto na história e contar como a Europa manteve sua cultura e suas tradições (os lombardos, por exemplo, ou mesmo os vândalos ainda hoje possuem descendentes que mantêm ritos aos deuses nórdicos), destruindo a cultura de outras civilizações conquistadas. Temos o exemplo mórbido e doentio dos Maias e Astecas sendo trucidados pelos espanhóis, assim como, os portugueses desestabilizando a rica cultura indígena de um próximo país que todos nós brasileiros conhecemos.

De todos esses fatos irascíveis que nos motivaram a formular dados e datas compondo livros de História, não podemos negar que há um reflexo que nos atinge em cheio até nossos dias.

A Cultura Popular sempre será a base e o centro das discussões de como se deve educar uma próxima geração.

Em qualquer discussão que entre em debate o perfil de um povo e em como mobilizá-lo a novos meios sociais contemporâneos, temos sempre a solução lógica — a educação.

Mas como devemos tratar esta educação de base? Como podemos interferir num meio já sociabilizado por mentes politicamente decadentes? O simples fato de você enveredar sua vida política para a “esquerda” ou para a “direita” você já aceita de antemão uma leve fissura que lhe ferirá e lhe fará esquecer-se do seu potencial cultural, de sua história. Pois não nascemos marxistas ou socialistas, Cristo não era cristão, assim como Buda não era budista. A nossa decadência vem do fato de esquecermos quem somos qual a nossa tradição, quais são nossas raízes culturais, onde está nossa descendência.cultura_popular2

Os critérios de educação devem estar baseados na história de um povo, em sua manifestação cultural. Ter mais questionamentos sobre suas origens e desferir um golpe de misericórdia para se perguntar: por que sou brasileiro?

Eu acho realmente irritante quando você depende de Leis de Incentivo à Cultura para se manter culturalmente num país. É algo desgastante, uma alternativa mesquinha. A Elite hoje se descobriu usando das Leis de Incentivo para bajular Governos e Empresários. Isso não é cultura popular, isso são negócios, Business, meu amigo! Não adianta a Lei estabelecer em um de seus parágrafos uma ligeira e preconceituosa questão: Qual é a sua contrapartida Social?

Contrapartida Social? Um projeto deve beneficiar a todos e antes de tudo ele precisa ter caráter popular de verdade, não privilegiar elites. A Cultura Popular deve ser mostrada como uma espécie de autoconhecimento para cada um de nós, falo agora a nível Brasil. Pensemos não como intelectuais ou pseudo-intelectuais, mas como sábios, em crer que uma roda de capoeira, uma dança kuarup dos índios do Alto Xingú, as danças de terreiro incorporadas pelo rito do Candomblé, o Boi-Bumbá, A Dança de Iansã, o próprio xaxado nordestino pode ser muito, mas muito rico em termos de manifestações culturais populares.

Desta mistura, onde estamos agregados a povos de várias etnias (europeias, africanas, asiáticas) acabamos por nos descobrir como um só povo e assim, quem sabe, acabarmos com preconceitos raciais que é o verdadeiro câncer que está consumindo a humanidade.

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Formado em Artes e Letras. É Ilustrador Profissional, Quadrinista, Professor de Desenho, Escritor e um dos responsáveis pelo Estúdio de Quadrinhos UCMComics onde divulga e promove a cena independente na cidade de Curitiba. Já publicou diversos livros e revistas em quadrinhos, tanto impressos quanto digitais. Participou de diversas exposições de quadrinhos e artes plásticas, ministra Palestras, Workshops, Oficinas e Encontros como Quadrinista e Professor de Desenho.