A Nossa Escrita Contemporânea

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Vários fatores vieram a contribuir para o caminhar de todas as artes até nossos dias atuais, onde uma mais plausível escola artística, autodenominada contemporânea, abasteceu e abastece todas as modalidades possíveis, todas as mídias inimagináveis, inclusive a nossa escrita, da prosa à poesia.

Mas o que realmente pensamos sobre contemporaneidade? Por que denominamos algumas artes desconstruídas como uma forma de arte contemporânea?

Esta arte contemporânea ou mesmo chamada pós-moderna (nada que use o prefixo “neo”) não categoriza este movimento pelo o que ele traz de novo, mas sim, pela sua busca em unificar tudo que as diversas artes nos proporcionaram pela História. É como recondicionar o antigo transformando-o em algo inédito. Uma reciclagem de tudo o que as diversas artes nos ensinaram para que num estopim de ideias, acabemos por traduzir tudo num ímpeto de originalidade.

Mas vamos nos ater ao que importa que é a Literatura, que é a nossa escrita, aonde toda uma desconstrução explícita veio a contribuir para uma nova forma de prosa, assim como, para uma nova forma de poesia que podemos, sem negligenciar qualquer arguto crítico literário, colocá-las dentro de um viés contemporâneo.

 

A Desconstrução: O que o Tropicalismo tem a ver com isso?

Por uma ironia do destino ou não, a desconstrução tomou o mundo após a segunda grande guerra. De lá para cá, a prova de que um urinol de Marcel Duchamp veio a desconstruir a Arte no mundo, de que agora a contextualização do objeto é o que pode ou não descaracterizar um elemento artístico, não nos incomoda polemizar quando o fato é compararmos um urinol a Monalisa, mas sim de que a arte a partir deste momento ficou livre das formas e regras, onde até mesmo na escrita isto se tornou evidente.

Grupo tropicalista quebrando barreiras.
Grupo tropicalista quebrando barreiras.

No Brasil nós tivemos um forte movimento de desconstrução que trespassou diversas formas artísticas, o movimento Tropicalista. E esta manifestação, que começou com uma Alegria Alegria, também teve repercussão na escrita.

Dos acordes dissonantes, para as rimas sem métricas ou dores, do poeta que não tem mais metas, mas apenas metáforas, o tropicalismo não só criou uma desventura, ao inverter o espaço da MMPB (Música Moderna Popular Brasileira) como trocou o violão pela guitarra ou mesmo a poesia metrificada pela concreta.

Nas artes plásticas a desconstrução veio com Helio Oiticica; na música, Caetano, Gil, Tom Zé, Rogério Duprat, entre outros; na prosa, a desconstrução ficou por conta de Jorge Mautner, de Ignácio de Loyola Brandão, Rogério Duarte Guimarães; na poesia, temos os concretistas, Ferreira Gullar, Wally Salomão. Destes artistas, vamos nos ater aos literatos.

A literatura tropicalista bebe muito de fontes descendentes de outros movimentos desconstrutivistas como a pop art, até mesmo do movimento beat, onde a liberdade de formas, o sistema cut up (sistema literário de consiste em montar um texto coeso a partir de anotações aleatórias) de Burroughs alimentou a ideia de escrever sem seguir regras.

 

A Prosa Brasileira Contemporânea

A literatura brasileira contemporânea se destaca por suscitar ecos políticos a partir do golpe militar de 1964, a partir das amarras da censura, onde autores importantes tomaram voz e desconstruíram o modernismo tornando-se pós-modernistas, ou seja, contemporâneos.

A escrita de Rubem Fonseca exemplifica o contexto de contemporaneidade ao politizar temas como violência urbana desenrolada numa ultra realidade, onde as palavras traduzem o dia a dia na fala das capitais, do herói descaracterizado e muito mais humano, submisso involuntário da sociedade. João Ubaldo Ribeiro é o exemplo mais forte de uma escrita que permeia entre o limite do erudito e do grosseiro. Sua prosa trás o que de mais tange o caráter da escrita contemporânea, ao tratar dos conflitos psicológicos dos personagens colocando o próprio enredo numa viela secundária.

Os personagens de Ubaldo Ribeiro, assim como de um contemporâneo seu, o curitibano Dalton Trevisan, trata do personagem como um ser psicologicamente frágil, vítima do vício, moribundo, sensualizado, humano, demasiadamente humano.

O urinol polêmico de Marcel Duchamp.
O urinol polêmico de Marcel Duchamp.

Os contos escritos neste nosso período contemporâneo refletem as mesmas problemáticas psicológicas da personagem na prosa longa. Mas o conto contemporâneo ele é mais curto e sucinto, reflete a ideia do enredo em seus primeiros parágrafos, caminhando mais profundamente nas confusões da psique do personagem permeado pelo mundo real e pragmático do seu século.

Como a vida extremamente urbana e violenta nas linhas escritas por Lygia Fagundes Telles ou Fernando Sabino.

 

A Poesia Contemporânea

A contemporaneidade dentro da poesia se torna confusa e coloco-a em dois estágios literários que acho importantes, justamente para entendermos como a poesia se transformou com o passar das décadas. Na poesia, movimentos como o tropicalismo e o concretismo foram fundamentais para a desconstrução da métrica.

Houve certa discussão sobre música e poesia, em certa época, no qual se perguntava se uma música não poderia ser um poema musicado, ou se uma poesia poderia, de repente, transformar-se numa música. Mas o que vale ressaltar é que esta desconstrução e o abandono das regras acabaram por nos colocar frente a poetas que estabeleceram um novo conceito para a poesia abrindo novos e interessantes horizontes.

A poetisa Angélica Freitas.
A poetisa Angélica Freitas.

A nova poesia contemporânea, ou melhor, vamos colocar aqui como a poesia de nossos dias, nos transmite os sentimentos e toda a carga através de objetos metafóricos. Calma, eu explico. Num poema, por exemplo, de Angélica Freitas, onde ela declama:

 

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado(…)

 

A poetisa nos transmite seus sentimentos através dos objetos que também nos passam a certeza do dia a dia. Não somente pela metáfora, mas pelo o que cada objeto tem a nos dizer através de sua equivalência com o protagonista.

Mais um exemplo, agora na poesia do novíssimo poeta Heyk Pimenta, onde ele declama:

 

As rodinhas batendo nas pedras portuguesas

mal encaixadas fazem a mala de mão que arrasto

tombar pra para um lado ora para o outro. A mala

é verde e já viajou para Argentina França Canadá

Outro Preto. A mala agora não está abarrotada (…)

 

Caminha-se aqui pelos conflitos do personagem e por suas dores através de uma mala, que nos fala não apenas como um objeto, mas como o coração pulsante do protagonista. Conheça esses novos poetas e suas letras, assim como os novos escritores que começam a surgir no Brasil e perceba em qual patamar chegou a nossa contemporaneidade.

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Formado em Artes e Letras. É Ilustrador Profissional, Quadrinista, Professor de Desenho, Escritor e um dos responsáveis pelo Estúdio de Quadrinhos UCMComics onde divulga e promove a cena independente na cidade de Curitiba. Já publicou diversos livros e revistas em quadrinhos, tanto impressos quanto digitais. Participou de diversas exposições de quadrinhos e artes plásticas, ministra Palestras, Workshops, Oficinas e Encontros como Quadrinista e Professor de Desenho.