Para Sempre, Caio…

Ele foi um pensador em várias vertentes, ele foi um expoente, um visionário, mas foi através de sua saborosa literatura que eu o conheci. Um acolhedor de palavras, um encantador de frases, avesso a tudo que trouxesse prolixidade. Conheçam Caio, deslumbre-se com Caio, saiba como entender Caio Fernando de Abreu.

Vagueando Por Um Mundo Vagal.

Li Morangos Mofados. Só aqui eu já poderia dar como findado meu texto e fechar minha Coluna desta semana sem precisar de aspas. Fazer do leitor a vítima perfeita do suspense que eu deixaria. Da ansiedade em que eu o instigaria. Depois fazê-lo correr a devorar, a comer, a mastigar com dentes salivantes o corpo nu, despojado de qualquer maldade, qualquer amoralidade, a carne crua da escrita de Caio Fernando de Abreu.Resultado de imagem para caio fernando abreu

Caio Fernando Loureiro de Abreu, o gaúcho de Santiago do Boqueirão, foi a ponte fixa deixando-se atravessar a voz de uma nova geração. Foi jornalista, dramaturgo e escritor acima de tudo. Sabe aquele estopim afrodisíaco naturalizando uma linguagem como a única a ser dita através de uma nova carga de juventude? Pois, foi na escrita de Morangos Mofados, que já no começo da década de 1980, isso se deu.

O quarto livro de Caio Fernando de Abreu, Morangos Mofados, aclamou-lhe como melhor escritor e melhor livro de contos daquela época e suas frases contundentes ecoam até hoje, como um Kerouac brasileiro escrevendo num sapateio desnorteante sobre nossas cabeças sem negar o olhar para a proa do navio.

A Literatura de Caio.

Não se escreve sobre a solidão apenas por estar sozinho, assim como não escreve sobre sexo apenas por estar transando, como não se escreve sobre a morte apenas por estar esperando-a. A literatura de Caio Fernando de Abreu por mais que transpareça uma inquietude pelos exageros sombrios do homem, no conjunto de sua obra é uma vontade de viver e de encontrar uma pungente felicidade que balança sua literatura. São nessas economias literárias, nesses arquejos por certas palavras (um Guimarães Rosa contemporâneo?), são nessas brutalidades claudicantes de uma delicadeza irônica que por vezes encontramos passagens de puro amor.

A escrita de Caio Fernando de Abreu torna-se dramática a partir do momento em que seu olhar indecoroso pousa sobre o mundo moderno. Seus contos, as histórias de seus contos, o roteiro de seus contos, mistura-se à vida severa de excessos do próprio autor, que se mistura com os excessos do próprio corpo volátil de uma sociedade que esconde de si mesma suas dores abruptas da solidão, Caio a escancara. Desnorteia, revela, desnuda em letras fortes, cheias de entusiasmo pela vida, ao mesmo tempo que brinca com um canivete sobre os pulsos estendidos.

Seu primeiro romance, Limite Branco (1970), já demarcava o território em que Caio desbravaria, lutaria e morreria vítima da doença do século. “Sou um homem dado aos exageros e não me arrependo de nada que fiz, então, de que outro modo eu morreria.” Disse numa entrevista quando anunciou que era HIV positivo. Colocou em sua escrita, desde o primeiro momento, a clausura do ser humano (Quem é que não é sozinho? – Já se perguntava Rita Lee) e já nos mostrava que assim como na música do poetinha (Como é, por exemplo, que dá pra entender / A gente mal nasce, começa a morrer), que cada ser humano nasce anunciando seu fim.

Os Romances de Caio.

Já comentaram a boca pequena que Caio Fernando de Abreu seria Clarice Lispector de calças. Não tanto pelos seus contos, que é muito pessoal, mas pelo seus romances, que faz caber na palma de uma mão todas as angústias colocadas sobre as costas do mundo. Tanto em Limite Branco, como em Onde Andará Dulce Veiga?, a fronteira entre o carma do sofrimento e as pequenas equações do desejo reprimido vão muito além da razão. O sentimento do outro é finito, assim como o seu próprio sentimento procura pelo devir da morte. Em Onde Andará Dulce Veiga? um jornalista se vê obcecado em tentar achar o paradeiro de uma cantora de cabaré e nesta estrada sem volta ele acaba sozinho, angustiado, melancólico, mas apaixonado por uma mulher que poderia ter existido ou poderia ter sido apenas uma das muitas lendas da Boca do Lixo. O jornalista quer voltar à tona depois de chafurdar na lama, quer sua história publicada de qualquer maneira, mesmo que para isso tenha que morrer oprimido pelo próprio medo de jamais encontrar uma suposta mulher chamada Dulce Veiga.

Ele não gostava de Raquel de Queiroz.

Caio Fernando de Abreu manteve-se no contraponto ao dizer às fauces de Raquel de Queiroz que os livros da escritora trouxeram uma carga negativa para o país e que ele era contra o tipo de ideologia que Raquel pregava em seus livros. Sim, Raquel de Queiroz escreveu sobre um país árido, geograficamente e no coração, um país sem causa e sem futuro, predestinado a morte e ao desprezo. Caio Fernando Abreu escreveu sobre a repressão e os caminhos da vida que nos levam a morte, caminhos sombrios, caminhos angustiantes, que nos direciona direto para uma biblioteca de derradeiras almas.

Resultado de imagem para caio fernando abreu

“Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.”

Que a literatura de Caio Fernando de Abreu prevaleça sobre as intempéries de nossa árida literatura atual e que venha a nos ensinar a escrever olhando o homem cada vez mais de dentro para fora e que de fora possamos estar de novo a nos olhar de fora para dentro.

Você Não Vai Querer Perder o Próximo Post
Venha para a classe VIP da Escola de Escritores. Inscreva-se ao lado; fique por dentro das novidades do Vida de Escritor. Estamos preparando posts cada vez melhores (como esse) para você. Sério! Eu não ficaria de fora.
Também odiamos Spam! Seu e-mail está seguro conosco.

Formado em Artes e Letras. É Ilustrador Profissional, Quadrinista, Professor de Desenho, Escritor e um dos responsáveis pelo Estúdio de Quadrinhos UCMComics onde divulga e promove a cena independente na cidade de Curitiba. Já publicou diversos livros e revistas em quadrinhos, tanto impressos quanto digitais. Participou de diversas exposições de quadrinhos e artes plásticas, ministra Palestras, Workshops, Oficinas e Encontros como Quadrinista e Professor de Desenho.