Pesquisar é Preciso

Descubra o Valor Que Uma Pesquisa Pode Ter Para o Seu Roteiro de HQ, Cinema, Conto ou Romance. 

 

Uma vez me apareceu um rapaz pretendendo ser roteirista de quadrinhos. Sua primeira história, ele decidiu, seria policial. Ótimo, eu disse: vá ler os clássicos policiais para saber como se escrever uma história no gênero. Ele respondeu que nunca faria isso. Queria escrever algo totalmente original.

Um mês depois ele apareceu com uma página de texto, um plot detalhado. Era a história de um detetive particular decadente que recebia a visita de uma loira sensual que o contratava. Logo depois, ele ouvia batidas na porta e, ao abrir, deparava-se com um homem que fora esfaqueado. Ou seja: era uma colagem de diversos clichês do cinema e da literatura policial noir (a exemplo de O Falcão Maltês).

falcao

Em outras palavras: escrever sem pesquisar só vai levá-lo a copiar inconscientemente algo que leu ou assistiu, ou ouviu.

Bons roteiristas pesquisam para escrever suas histórias. Charlier, antes de escrever Blueberry, viajou para os EUA para ver o local em que ia se passar seu faroeste. Alan Moore conta que quando começou a escrever O Monstro do Pântano leu tudo que achou sobre os pântanos e sobre a Flórida. Quando começamos a escrever a graphic Manticore lemos muita coisa sobre os ataques do chupa-cabra e chegamos a entrevistar pessoas que haviam visto os animais atacados. Li até mesmo livros de zoologia (foi de um deles que tirei a informação de que animais carnívoros costumam caçar numa região circular, em volta do local onde estão suas crias).

 

Manticore-altaE, claro, pesquisar, inclui pesquisar o que outras pessoas já escreveram sobre o assunto. Isso não significa que você irá realizar um plágio. Ao contrário: saber o que já se produziu sobre o assunto ajuda justamente a seguir em frente, fazer algo além do que já foi feito. Ajuda também a entender como funciona um determinado gênero.

Quando comecei a escrever histórias para a MAD, fui na minha coleção e reli vários números, anotando características de estilo, a maneira como funcionava o humor da revista. Dizem que Carlos Eduardo Novaes, um grande escritor brasileiro especializado em humor foi contratado pela MAD na década de 1970, mas escreveu pouco. Ele achou que já sabia como se fazia humor e não se deu ao trabalho de pesquisar como era o humor do gibi. O resultado foi algo que simplesmente não encaixava na proposta editorial da revista.

NDE: Mas para responder a esse post você não precisa pesquisar. Ou será que sim? Aproveite os comentários abaixo e deixe seu recado para o autor pesquisador. 

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Gian Danton é roteirista de quadrinhos desde 1989, tendo trabalhado em diversas editoras e escrito para diversas revistas, entre elas a MAD. Seus trabalhos mais conhecidos na área são a premiada graphic Manticore e o álbum A insólita Família Titã. Recentemente tem participado de diversas antologias de quadrinhos e literárias. É autor de diversos livros sobre quadrinhos, entre eles o Como escrever quadrinhos e Grafipar, a editora que saiu do eixo. Tem dois romances publicados, a fantasia histórica Galeão e o livro de zumbis O uivo da górgona.

  • Ceres

    Esse texto só reforça a minha ideia de que os escritores iniciantes não
    se preocupam com o que escrevem. Acham que pesquisa não é importante,
    que técnica só engessam e saem escrevendo qualquer coisa de qualquer maneira.

    • vagnerdabreu

      É verdade Ceres… E aí veem com aquele papo. “Mas não preciso de pesquisa porque a minha história se passa em um mundo que eu criei…” Poxa, se Tolkien e Robert E. Howard (dois grandes criadores de universos) pesquisaram muito nas culturas da Terra para criarem seus mundos, porque o iniciante não?

      • Ceres

        É esse o ponto que diferencia o amador do profissional. A pesquisa e o conhecimento das técnicas. Aplicar, ou não, vai depender de cada um, ou do que cada um procura ser dentro do mundo da literatura.
        Não é uma questão de engessar o texto, mas de ter subsídios necessários para mudar algo sem medo de errar. Quanto mais se conhece, mais fácil ficam essas alterações.
        E, se por algum motivo, precisar optar por um Deus Ex Machina, que seja, mas que exista a consciência dos motivos para ter utilizado essa ferramenta.